
Vista-se da própria essência! O amor
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração…” – amarás o teu próximo como a ti mesmo”
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Jesus, como um bom Mestre, sabe aproveitar da pergunta feita por um doutor da lei e busca recuperar o essencial da vida, re-descobrir o “espírito perdido”: qual é o mandamento principal? Que é o essencial? Onde está o núcleo de tudo?
O próprio Jesus responde, recolhendo a fé básica de Israel: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser”. E acrescenta: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”.
A cena do evangelho deste domingo tem como pano de fundo uma atmosfera religiosa em que os mestres da lei e letrados classificavam centenas de mandamentos da Lei divina em “fáceis” e “difíceis”, “graves” e “leves”, “pequenos e grandes”. Impossível mover-se com um coração sadio neste emaranhado de leis e mandamentos.
Quando as religiões esquecem o essencial, facilmente se adentram pelos caminhos da mediocridade piedo-sa, da casuísta moral, do legalismo doentio, do ritualismo estéril, que não só incapacitam as pessoas para uma relação sadia com Deus, mas podem desfigurar e destruir gravemente as mesmas pessoas, carregando-as de culpas, remorsos e sentimentos de indignidade. Nenhuma religião escapa deste risco.
Partindo do nosso contexto de cultura pós-moderna, também nós podemos nos perguntar: qual é a essência da vida? Por que e para que existimos? Que temos de fazer para saborear a felicidade aqui e agora? Como seguidores(as) de Jesus, o que é mais importante na vida cristã? Qual é a atitude que diferencia o cristão?
Sem dúvida, a catequese cristã nos dá a mesma resposta de Jesus: o amor a Deus com todo o nosso coração, com toda nossa alma, com todo nosso ser e ao próximo como a nós mesmos. Só damos glória a Deus quando amamos o ser humano assim como O amamos. Para um cristão, o amor a Deus e o amor ao irmão são um único amor. Ambos se implicam. Não é possível viver um sem o outro. A experiência do amor não é distinta, embora sejam distintas as pessoas amadas: Deus e os outros. Não é possível amar a Deus mais que ao ser humano, nem é possível amar mais o ser humano que a Deus. No amor não cabe o mais e o menos. Ou se ama ou não se ama. Por isso, a essência da fé e da identidade cristã é o amor evangélico (ágape, gratuito, oblativo, generoso, aberto a tudo e a todos…) que se visibiliza no serviço e na entrega. É o mesmo amor que Deus tem por todos nós, seus filhos e filhas.
De que Amor se trata? Que essência tem esse Amor? Percebemos com muita clareza que este amor não é um dever moral, ou uma lei que se impõe a partir de fora; é a vibração mais profunda do nosso ser, uma corrente interna de energia que nos conecta com a própria Fonte do Amor, com os outros seres semelhantes e com todas as criaturas. Fomos criados(as) para o amor gratuito e libertador.
Deus é amor e n’Ele vivemos o amor: esta expressão evoca um movimento circular, uma dança inclusiva, onde os outros, a realidade divina e nossa realidade humana se sincronizam para gerar um vínculo indestru-tível. Este amor brota do mais profundo e só tem vida quando se expande para fora. Não vem do exterior, nem se impõe, tão somente desperta e nos faz ser conscientes de que é a essência de nossa verdadeira identidade.
Portanto, a vivência do amor é o distintivo de que somos discípulos(as) de Jesus; amor que nos faz seme-lhantes e nos situa numa horizontalidade que não se pode romper. Jesus nos chama à circularidade, a uma visão nova de que o amor não é buscar algo que nos complete, porque já fomos criados como seres comple-tos. Não somos “metade” de ninguém, mas pessoas únicas que peregrinam por esta história estabelecendo vínculos e enraizados no espaço interior onde co-habitam nossa humanidade e a divindade entrelaçadas.
É verdade que o amor se expressa através de gestos, palavras, atitudes, mas não para aperfeiçoar ninguém, mas para despertar a consciência de que todos somos valiosos e temos a mesma dignidade. Não é um amor romântico, adocicado, sensível, mas um amor que cura, liberta, fortalece e transcende.
Trata-se de um amor que não nasce da carência, mas da abundância; é ele que ativa as ricas reservas de bondade, de compaixão, de verdade, que desperta o melhor que há em cada um de nós e se expande através de uma presença solidária e comprometida.
Unificar a vida a partir do amor: esse é o grande sentido de nossa existência. O amor verdadeiro é unifi-cador, é proximidade calorosa e envolvente; isso significa abraçar tudo a partir dele, sem excluir ninguém.
Somente o amor orienta a vida na direção certa; viemos do Amor, vivemos no amor e voltaremos para o Amor. Só acerta na vida quem vive o caminho do amor. Se o núcleo da realidade, seu “segredo” é Amor, isso significa que amar não é, em primeiro lugar, uma questão ética, mas de sabedoria. Acertamos na medida em que vivemos o amor; nos “equivocamos” sempre que nos desviamos do amor e nos enredamos num moralismo e legalismo vazios.
O amor não é simplesmente um valor moral que devemos cultivar; o amor é a própria vida bem orientada; a vida vivida a partir de sua verdadeira origem, e orientada positivamente para sua verdadeira plenitude.
Na origem de nosso ser está Deus, um Deus que é Amor infinito e insondável. O mistério que somos provém d’Ele. Nosso ser é fruto e reflexo desse amor infinito de Deus. Isso significa que a força vital que circula por nosso ser, buscando expansão e plenitude, é aquela inspirada pelo amor e orientada para o amor.
Toda vez que realizamos uma experiência fundante, uma atividade inspiradora, ou quando nos encontramos com pessoas que despertam o melhor em nós, ou quando sofremos incompreensões sem apelarmos para a violência, ou quando nos comprometemos com causas justas…, é sinal de que a força vital foi ativada, entramos no movimento oblativo de saída de nós mesmos; isso só é possível porque está orientada e impulsionada pelo amor.
“Deus é Amor” ou, em melhor tradução, “Deus consiste em estar amando” (1Jo 4,8)
O amor é a experiência humana que Deus elegeu para nos revelar seu mistério. De tudo o que procede do seu coração, Deus elegeu o amor para nos manifestar o mais parecido como é Ele. Ao amar, deixamos Deus ser Deus em nossas vidas.
“Amarás o Senhor, teu Deus com todo teu coração…” Estas palavras podem nos desconcertar. Quando poderíamos ter o coração livre para amar o Senhor inteiramente?
No entanto, “amar a Deus com todo o coração” é amá-Lo com o que há nele, “com o coração”: com seu lado de luz e de sombra, com seu trigo e seu joio, com sua terra boa e sua terra baldia… Amá-Lo com o que há de mais frágil em nós para que Ele o transforme em bem, entregar o que em nós é obscuro para que Ele possa pôr sua luz e sua ternura aí.
À luz desse amor, todas as dimensões do nosso ser – corpo, mente, afetividade, coração -, toda esta pessoa que somos nós e que está constantemente em processo de construção, com tudo o que constitui nossa vida, se coloca à disposição da corrente vital que quer atravessar-nos e alargar-nos.
Como amar os outros na densidade de sua vida se não nos recebemos primeiro desse Amor maior que nos busca e nos ama com tudo e através de tudo?
Texto bíblico: Mt 22,34-40
Na oração: O Amor originante e fontal de Deus lhe envolve permanentemente; marcado pela gratidão, queira entrar em sinto-nia, “ajustar-se” ao modo de amar de Deus: amor descendente, amor sem fronteiras, obla-tivo, expansivo… e que se “revela mais em obras do que em palavras” (S. Inácio).
– Movido pelo Amor transbordante de Deus, entre no fluxo desse Amor criativo, “descendo” à realidade cotidiana e ali deixando transparecer esse mesmo Amor através de suas ações e atitudes.
– Faça “memória agradecida” de sua presença amorosa na realidade cotidiana. Viva em contínua ação de graças.




