4º Domingo do Tempo Comum — Ano A
BEM-AVENTURANÇAS: Coração do Evangelho
“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”. (Mt 5,12)
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
As Bem-aventuranças não são um tratado de moral nem um código de leis que se impõe de fora a cada um de nós; elas expressam simplesmente a experiência de Jesus, que vivia constantemente com os olhos bem abertos, captando a essência do ser humano. Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Jesus viveu-as durante 30 anos, antes de proclamá-las. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da sua pessoa e da sua vida, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério. Poderíamos dizer que as bem-aventuranças são o autorretrato de Jesus: nelas, Ele deixa transparecer um coração pleno de vida, compassivo, solidário, pacífico, sensível à realidade…; nelas, Jesus não descreve sua felicidade particular, mas a oferta de uma vida plena e feliz a todo ser humano.
De fato, as bem-aventuranças correspondem àquilo que é mais nobre em cada ser humano; elas desvelam o mais profundo do ser humano, de toda ser humano, aquilo que coincide em toda pessoa: ser feliz, vida ditosa, prazerosa, viver a plenitude na relação pessoal. Todos coincidimos nessa busca.
Jesus instigou seus ouvintes a expandirem sua capacidade de observar, interiorizar, descobrir e agir. Não queria pessoas tímidas, frágeis, submissas, mas pessoas inspiradas e livres para mudar o sentido da história, pessoal e coletiva.
Por mais que leiamos ou saboreemos, as bem-aventuranças sempre nos soam bem, tem sempre um sabor diferente; elas são casa que sempre nos acolhe, lugar no qual o Senhor sempre nos espera. Por isso, é um prazer escutá-las de novo neste domingo.
Fala-se de gente bem-aventurada, ditosa, sortuda. O vocábulo grego “makarios” significa justamente isso: alguém a quem a sorte lhe sorriu, que se encontrou com grande prêmio inesperado, que não sabia que tinha em sua casa um tesouro desconhecido. Por isso, ao comprovar sua sorte, se sente ditoso, agradecido, feliz, solidário.
As bem-aventuranças não descrevem um estado ideal, nem uma enumeração de prêmios recebidos por aquilo que fazemos, mas nos apresentam um horizonte alternativo. Elas são o “portal de entrada” do sermão da Montanha que nos convida a imaginar um mundo alternativo no qual a violência dê lugar à compaixão, as relações sejam justas e equitativas e todos possam ter acesso aos recursos disponíveis. Não é questão de alcançar alturas espirituais, mas de expandir a vida para tornar possível um mundo diferente, um mundo de acordo com o sonho do Reino de Deus, iniciado por Jesus.
As bem-aventuranças nos situam em um espaço alternativo, a partir de onde podemos ter uma nova perspectiva da realidade e de Deus. Este novo espaço é o que Jesus chamou Reino de Deus e as bem-aventuranças são centrais para imaginar esse lugar. As bem-aventuranças e o Reino de Deus estão de mãos dadas.
Jesus, ao proclamá-las, está nos convidando a recriar os lugares que habitamos, está nos chamando a pensar e viver a partir de outros valores, com outras atitudes e práticas que, sem dúvida, não nos situarão nos centros de poder, mas nas margens, porque não se harmonizam com o que a maioria pensa.
Ao escutá-las com atenção encontramos o “modo de proceder” e as atitudes sintonizadas com o coração de Deus. Portanto, quem quiser fazer parte da comunidade do Reino precisa não só valorizá-las e estimá-las, mas convertê-las em sinais de identidade cristã.
As bem-aventuranças nos movem a denunciar as guerras, a fome, o ódio, a intolerância e as injustiças de nosso mundo e a escutar os gritos dos pobres e da terra. As bem-aventuranças nos pedem que não nos deixemos determinar pela indiferença diante da dor de nosso mundo; elas nos despertam e nos fazem ver que já é hora de trabalhar em favor do bem comum das pessoas e do planeta terra. Frente o escândalo das guerras, da fome, do ódio e da mentira, as bem-aventuranças são para nós luz de esperança e sementes de uma vida nova.
Na formulação de cada bem-aventurança há duas partes: o que pede de todos nós e o que nos promete. Pede-nos: revestir-nos do modo de ser e viver de Jesus, levando uma vida centrada na partilha e na comunhão de bens, renunciando à violência, compadecendo-nos frente à dor dos outros, vivendo a autenticidade da entrega, da disponibilidade, sendo presença misericordiosa, justa, pacífica, etc…
Promete-nos: nossa plenitude humana e divina, ou seja, o Reinado de Deus em nós.
Podemos também afirmar que cada bem-aventurança começa na “precariedade” e termina na “completude”: o vazio do ter se converte em plenitude do ser (5,3); pela sensibilidade solidária com os que padecem chega-se a ser consolado (5,4); pelo despojamento, os humildes se convertem na camada de húmus fértil que cobre a terra (5,5); o desejo de que haja justiça anuncia as primícias de uma humanidade nova (5,6); o descentramento de pôr o coração na miséria alheia se converte em capacidade para receber a misericórdia de Deus na própria miséria (5,7); a transparência do olhar que não julga nem compara, mas que acolhe incondicionalmente, se converte em percepção de que Deus está presente em toda situação (5,8); a preocupação pela paz faz partícipes de uma fraternidade sem fronteiras, nessa difícil tarefa de reconciliar os humanos (5,9); os que são fiéis a causas justas, para além dos modismos e dos interesses mesquinhos, são felizes porque tem o Absoluto dentro e fora de si mesmos, mesmo que sejam perseguidos porque se antecipam aos seus tempos, tal como aconteceu com os profetas e com o próprio Jesus (5,10-11).
Tudo isso são imagens da humanidade transfigurada a partir da humanidade desfigurada, a passagem entre o já e o ainda não. Nesse longo trajeto transcorre a existência de cada um e da humanidade inteira. Essa travessia, esta Páscoa, não se faz por outro caminho a não ser iluminando a realidade mesma na qual cada um se encontra.
No fundo, as bem-aventuranças são o caminho para descobrir a Deus em nós mesmos (nossa bondade e compaixão, nossa dimensão divina) e nos outros com quem Deus se identifica e se encarna (“foi a mim que fizestes”). Isso nos faz felizes porque encontramos o tesouro escondido: Deus em nós; somos “seres habitados” e nos parecemos com Deus em seus atributos (bondade, misericórdia, justiça…). Assim, nossa vida adquire um sentido transcendente, pleno…; nas bem-aventuranças encontramos razões para viver…
Infelizmente, a espiritualidade cristã se ocupou mais com o sofrimento do que com a alegria, se preocupou mais com mortificações, penitências, situações duras e penosas da vida do que com aquilo que nos proporciona felicidade, bem-estar e satisfação; alimentou uma religião da culpa, do medo, e se distanciou do prazer de viver, descentrado e aberto.
E o que é a felicidade despertada pela vivência das bem-aventuranças? Trata-se de um estado de serenidade, como a capacidade de atravessar as perturbações cotidianas sem cair no desespero.
Felicidade como possibilidade de acalmar a consciência e repousar a mente muitas vezes atormentada.
Felicidade como vivência mansa, mas distante do imobilismo e da acomodação.
Nós cristãos, às vezes esquecemos que o Evangelho é uma resposta a esse desejo profundo de felicidade que habita o nosso coração. Às vezes não conseguimos ver em Cristo alguém que promete felicidade e que nos conduz até ela. Não acreditamos que as bem-aventuranças, antes que exigências morais, são anúncio de uma vida ditosa. Temos a tendência de pensar que a fé é algo que tem a ver exclusivamente com uma salvação futura e distante, e não com a felicidade concreta de cada dia.
O caminho desenhado nas bem-aventuranças pode nos fazer conhecer a felicidade vivida pelo próprio Jesus. Somente assim nossas pequenas alegrias alcançarão sua plenitude.
Texto bíblico: Mt 5,1-12
Na oração: O melhor modo de fazer esta oração é seguir um dos “modos de orar” proposto por Santo Inácio, ou seja: “Contemplar o significado de cada palavra das bem-aventuranças”.
— Reze as dimensões da vida que estão paralisadas, impedindo-lhe de viver a dinâmica das bem-aventuranças.
— Como ser presença visível das bem-aventuranças no seu cotidiano?
Ilustração: IAS Agência (Liturgia Diária da Paulus, fevereiro’2026 – p.19)




